GERONTOTECA: O olhar terapĂȘutico do Brincar para a Pessoa Idosa
- Abbri
- 11 de mai. de 2023
- 6 min de leitura
Atualizado: 1 de set. de 2025
1 - Anderson Amaral
2 - Adriana Limeira do Nascimento
3 - Bruno Trindade
1 - Anderson Amaral: Profissional de Educação FĂsica, Arteterapeuta, Brinquedista, Mestre em Gerontologia e PĂłs-graduando em Geriatria e Gerontologia. Membro do CEBI.
2 - Adriana Limeira: Terapeuta Ocupacional, Arteterapeuta, Brinquedista, Especialista em SaĂșde Mental e Especialista em SaĂșde PĂșblica.
3 - Bruno Trindade: Atua como TĂ©cnico Superior em Mediação e Animação Socioeducativa no Agrupamento de Escolas Nuno Ălvares e Ă© investigador nas ĂĄreas das crianças e idosos. Doutor em CiĂȘncia Sociais e Educativas na Universidade de Salamanca. Mestrado em Animação ArtĂstica na IPCB - Escola Superior Educação. Licenciatura em Animação Cultural/Sociocultural na IPCB-Escola Superior de Educação. PĂłs-Graduação em Gerontologia Social (IPCB, Escola Superior Educação).
O envelhecimento Ă© um processo fisiolĂłgico que acomete todos os seres humanos e nĂŁo deve ser encarado como patologia, mas como parte de um ciclo natural da vida que se caracteriza por mĂșltiplas alteraçÔes como as fĂsicas e cognitivas. NĂŁo Ă© linear, pois cada pessoa envelhece de forma diferente e interage com esse processo de maneira singular. Essas variaçÔes sĂŁo dependentes de fatores como estilo de vida, condiçÔes socioeconĂłmicas e doenças crĂłnicas. As variĂĄveis biolĂłgicas, psicolĂłgicas e sociais relacionadas com o processo de envelhecimento sĂŁo objeto de estudo de diversas ĂĄreas da gerontologia (AMARAL, LIMEIRA, OHY, 2019, p. 70).
Na perspectiva de um olhar mais amplo sobre as mĂșltiplas variĂĄveis que podem acometer o processo de envelhecimento, a formação de uma equipa interdisciplinar surge como alternativa de melhor qualidade de vida, saĂșde para os idosos e diĂĄlogo entre os profissionais. A interdisciplinaridade implica a interação das diversas disciplinas que possibilitarĂŁo um enfoque holĂstico no que tange Ă melhoria da qua- lidade de vida da população idosa. Ter um olhar isolado em relação Ă saĂșde do idoso Ă© deixar de lado um conjunto de questĂ”es que estĂŁo intimamente relacionadas com seu processo de vida, que os aspetos so- ciais, emocionais, culturais e ambientais se refletem diretamente no estilo de vida, contribuindo significativamente para os aspetos biolĂłgicos (PAIXĂO JUNIOR, 2018, p.21).
Na busca pela ampliação de possibilidades para o idoso, o trabalho interdisciplinar surge como uma importante estratĂ©gia para o cuidado da saĂșde geral do idoso, pois a partir do trabalho interdisciplinar ele passa a ser visto sob diferentes fatores que ganham uma significativa importĂąncia neste momento, considerando todas as va- riĂĄveis sob mĂșltiplos olhares. Questiona as fronteiras profissionais desafiando o profissional a dialogar com diferentes saberes e, dessa forma, reforça o carĂĄter democrĂĄtico dos serviços e promove um cuidado sistematizado. Perante esta realidade, o cuida- do realizado ao idoso envolve o prĂłprio, a sua famĂlia, profissionais e a comunidade na qual ele vive, seja ele residente em domicĂlio ou em institucional de longa permanĂȘncia para idosos (NASCIMENTO; ANDRADE, 2019, p.177).
A instrumentalização da equipa multidisciplinar Ă© fundamental nesse processo, fomentando a materialização de uma atmosfera plenamente motivadora, agradĂĄvel e desafiadora para que toda a equipe se sinta satisfeita em executar os seus processos terapĂȘuticos sem deixar de lado o pensamento coletivo que tĂŁo significativo Ă© para a saĂșde do idoso. Especialmente nos serviços de atendimento aos idosos hospitalizados ou institucionalizados. A elaboração de plano terapĂȘutico Ă© fundamental para diĂĄlogo entre as equipe otimizando os resultados das intervençÔes.
As dificuldades apresentadas pelos idosos, segundo Penkal et al. (2016), nas atividades quotidianas de trabalho e de lazer, podem ser decorrentes de mĂșltiplos problemas de saĂșde. A situação de vulnerabilidade social pode agravar o desempenho fĂsico, mental e social. As polĂticas pĂșblicas devem contribuir de forma efetiva para promover o processo de envelhecimento com qualidade devida e saĂșde. HĂĄ necessidade de iniciativas dos setores pĂșblicos e privados que venham a contemplar a população idosa, nomeadamente os institucionalizados e/ou hospitalizados. Especialmente intervençÔes nĂŁo farmacolĂłgicas.
AlĂ©m do tratamento farmacolĂłgico, Ă© recomendado tambĂ©m que o idoso receba tratamentos nĂŁo farmacolĂłgicos. A estimulação constante do idoso com atividades fĂsicas e cognitivas, participação em atividades sociais com outras pessoas, exercĂcios de memĂłria, atividade fĂsica e mesmo afazeres domĂ©sticos sĂŁo estratĂ©gias relevantes na melhoria de sua qualidade de vida e saĂșde. Como tratamento nĂŁo farmacolĂłgico, tem sido difundida a abordagem da estimulação cognitiva e motora com atividades lĂșdicas em equipas interdisciplinares. A proposta Ă© a estimulação utilizando o recurso da ludicidade, onde podem ser incluĂdos vĂĄrios tipos de dinĂąmicas, jogos cognitivos e brincadeiras psicomotoras. Os jogos com multiplicidade de recursos interativos apresentam bons resultados na autoestima do idoso e auxiliam na melhoria das funçÔes cognitivas (AMARAL; OHY; NASCIMENTO, 2019).
Nesta perspectiva de estimular as funçÔes cognitivas e motoras, assim como a socialização do idoso, surge a Gerontoteca como um espaço de estimulação, ludicidade e humanização em instituiçÔes de longa permanĂȘncia para idosos e hospitais. A Gerontoteca apresenta um olhar no Ăąmbito hospitalar, atendendo os serviços de ambulatĂłrio e/ou enfermarias dos idosos, mas tambĂ©m contemplar idosos institucionalizados. A criação desses espaços possui objetivos de proporcionar a melhoria de qualidade de vida, bem-estar fĂsico, psĂquico, social e, principalmente, humanização e estimulação por meio de recursos como a arte, musicalização, educação, ludicidade e dos jogos cognitivos (AMARAL;NASCIMENTO, 2018, p.109).
A Gerontoteca possibilita o trabalho interdisciplinar, com a interação dos diversos profissionais da equipe. O cuidado com o idoso impĂ”e desafios aos profissionais, que precisam de ter habilidades plurais para lidar com situaçÔes variadas. Para uma intervenção bem sucedida Ă© necessĂĄrio o trabalho interdisciplinar. AtravĂ©s da troca dos saberes, permite a atuação sob o olhar terapĂȘutico, peda- gĂłgico, sociale recreativo.
A Gerontoteca vem de encontro Ă s necessidades e Ă lacuna a ser preenchida nas ILPIs (InstituiçÔes de Longa PermanĂȘncia para Idosos no Brasil), pois muitas instituiçÔes nĂŁo possuem espaços de estimulação, ludicidade e atividades para os idosos. Nos ambientes hospitalares, muitos possuem brinquedotecas destinadas aos pacientes da pediatria, mas poucos possuem ambientes destinados a estimulação de adultos e idosos (AMARAL; NASCIMENTO, 2019).
Um modelo de Gerontoteca Ă© a localizada no Lar SĂŁo Vicente de Paulo, no MunicĂpio de Salgueiro/PE, Brasil, que contempla idosos institucionalizados. Foi criado um local especĂfico para as atividades, aberto a todos (idosos, cuidadores, profissionais e visitantes) sempre sob a supervisĂŁo de dois membros da equipe multidisciplinar. LĂĄ Ă© possĂvel encontrar diversos jogos, recursos mĂșltiplos e materiais devidamente organizados em caixas etiquetadas, separando os jogos e materiais de acordo com a sua classificação. HĂĄ tambĂ©m espaço destinado a tecnologia permitindo o acesso do idoso ao computador e tablet. O lĂșdico utilizado como recurso do cuidado, gera movimento Ă ILPI, tornando-a uma experiĂȘncia singular, sendo possĂvel reforçar laços afetivos entre cuidador e idosos, assim como entre os prĂłprios idosos e familiares.
Associar a estimulação cognitiva e a ludicidade dos jogos, dinĂąmicas e brincadeiras, promove alĂ©m da melhoria cognitiva, o bem estar fĂsico, mental e social. Essas atividades sĂŁo capazes de promover um ambiente planejado, motivador, agradĂĄvel e enriquecido, possibilitando a aprendizagem de vĂĄrias habilidades. Os benefĂcios tambĂ©m se repercutem no Ăąmbito social, melhorando o desempenho funcional, mantendo e promovendo a independĂȘncia, a autonomia dos idosos e melhoria da cognição social (AMARAL E OHY, 2019, 78).
O jogo como prĂĄtica de saĂșde Ă© uma temĂĄtica que vem sendo discutida e pesquisada nos Ășltimos anos. Os jogos podem ser usados como auxĂlio a tratamentos de maneiras variadas, conforme as necessidades dos pacientes. Podendo ser utilizados como intervenção na rotina de pessoas internadas ou em tratamento ambulatorial, nĂŁo necessariamente como parte de um tratamento, mas aplicado como parte do cuidado e humanização (VASCONCELOS; CARVALHO; ARAĂJO, 2018).
ReferĂȘncias:
1. AMARAL, A.; Nascimento, A.L.; Ohy, J. Jogos Cognitivos aplicados aos idosos. Dignus: Revista tĂ©cnica em geriatria e gerontologia. Portugal. N. 1, ano 1, 2Âș trimestre de 2019.
2. AMARAL, A.; Nascimento, A.L. Jogos de Estimulação Cognitiva e Motora. Rio de janeiro. WAK editora, 2019.
3. AMARAL, A.; Ohy, J. Aspetos cognitivos e motores do Parkinson. Revista Psique, n. 159, 2019. 72-79.
4. AMARAL, A. Nascimento, A.L. Ambientes de estimulação: Brinquedotecas e Gerontotecas, p. 109. In Amaral, A.; Ohy,J. Jogos Cognitivos um olhar multidisciplinar. Rio de Janeiro. Editora WAK, 2018.
5. AMARAL, A. Animação Sociocultural e Estimulação Cognitiva nos Lares. In Pocinho, R. Trindade, B. Diferentes perspectivas da animação e do envelhecimento. Portugal. Euedito,2018.
6. NASCIMENTO, A.L.; ANDRADE, A.C.I.C. Instrumentalização da equipe multiprofissional na estimulação cognitiva e motora em uma instituição de longa permanĂȘncia para idosos no municĂpio de Salgueiro -PE: o olhar da Terapia Ocupacional. In. A Educação como Elemento Transformador do Trabalho em SaĂșde Formação em SaĂșde PĂșblica no SUS em Pernambuco. Macedo, B.C.; Andrade, D.A.; Lemos, E.C. Pernambuco. Governo do Estado. Secretaria de SaĂșde. Recife: Secretaria de SaĂșde, 2019.
7. PAIXĂO JUNIOR, C.M. Avaliação funcional interdisciplinar: PrincĂpios, p. 21. In Lourenço, R.A.; Sanchez, M.A.S.; PaixĂŁo Junior, C.M. SĂ©rie Rotinas Hospitalares. Rio de Janeiro: Triunfal, 2018. Rotinas Hospitalares â Hospital universitĂĄrio Pedro Ernesto; volume VI, pt. 1.
8. PENKAL, S. Souza; B.M.; Basi, E.R.; Andrade, A.G. Grupos de ConvivĂȘncia, p.43. In Campos, A,C,V.; Berlezi, E.M.; Correa, A.H.M. Teorias e PrĂĄticas socioculturais na promoção do envelheci mento Ativo. IjuĂ RS. Editora Unijui,2016
9. VASCONCELOS, M.S.; Carvalho, F.G,; AraĂșjo, I.S. O Jogo PrĂĄtica de SaĂșde. Editora Fiocruz,2018.
