O BRINCAR/JOGAR COM JOGOS DE REGRAS

         Cada etapa de desenvolvimento está ligada a uma modalidade de brincadeira, do bebê ao adulto. Assim, promover oportunidades para brincar em todas as idades, é assegurar um desenvolvimento saudável e a plena realização das potencialidades de cada indivíduo.    No entanto, a interação social entre as pessoas por meio de jogos e brincadeiras está perdendo espaço na sociedade atual e isto é uma situação muito preocupante.

Em relação às crianças e jovens, Isso acontece não só pela oferta de jogos eletrônicos e do grande marketing em torno deles. O tempo de brincar vem sendo ocupado por atividades dirigidas e por tarefas escolares, às vezes excessivas e precoces (haja vista a carga de ensino formal que está sendo colocada para as crianças de 5/ 6 anos que agora ingressam no Ensino Fundamental), quando não concorre com o trabalho material mesmo, entre as populações mais carentes.

Vale fazer algumas distinções nesse terreno conceitual tão complexo e interdisciplinar como é o brincar, a brincadeira e o jogo. De acordo com estudiosos do tema, como Kishimoto, da Faculdade de Educação da USP, brinquedo e brincadeira relacionam-se com a criança e não se confundem com jogo. Esse comporta uma “grande família” e é usado por adultos também, além de serem sempre metáforas de situações humanas. Na verdade, estendendo o conceito, pode-se chamar de jogo todo processo metafórico.

O homem brinca e joga em todas as idades porque sua natureza é simbólica, ele necessita fazer esse trânsito entre o material e o imaterial, de viver o “como se”, para se relacionar com a natureza, com o transcendente, consigo mesmo. Ao fazer isso, o Ser Humano realiza sua essência de Ser criativo, produtor e usuário de cultura, seja uma criança, um adolescente ou um adulto.

Brincar é a primeira forma de participar e de produzir cultura. Nas brincadeiras, a criança se expressa, vive sua cultura e a reproduz. Ao brincar, a criança dialoga com a sociedade e com o outro, representando as funções dos diferentes papéis sociais do mundo adulto. Ela vai se apropriando de sua cultura e das relações sociais de forma ativa, transformando, recriando, experimentando.

E o jogo de regras, como entender seu valor? O jogo sempre foi visto como divertimento, distração, passatempo, como oportunidade de socialização. Na verdade é essa a sua verdadeira natureza e deve a todo custo permanecer assim, como uma atividade cujo fim é ela mesma. Huizinga (em Homo Ludus, ed. orig. 1938) descreveu o jogo como uma atividade voluntária, exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotada de um fim em si mesma, acompanhada de um sentimento de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da vida cotidiana (ter caráter fictício). Caillois (Os jogos e os homens, ed. orig. 1958) sublinhou sua dimensão imprevisível, cujo desfecho não se pode determinar, dependente que é da capacidade de inventar do jogador.

O jogo, para o brinquedista, será um meio precioso para favorecer o desenvolvimento da pessoa, em seus diversos aspectos: afetivos e relacionais, cognitivos, habilidades de planejamento e execução. Porém isso não poderá impedir de que ele seja também um fim para a criança, o jovem, o adulto ou o idoso. Proporcionar esse equilíbrio entre fins e meios requer muito cuidado e sutileza. O contexto lúdico e prazeroso precisa ser preservado a todo custo: concorrer, enfrentar o desafio, explorar estratégias, tomar decisões, buscar as melhores jogadas e, sobretudo, o melhor resultado, o de superar o oponente e ganhar. O jogo perde seu caráter de espontaneidade e se esvazia no seu potencial de exploração e invenção se ele se torna uma obrigação ou se é usado com finalidade de instrução e/ou de moralização.

O enfoque que a ABBRi propõe para o ambiente da brinquedoteca é o da liberdade e da espontaneidade, onde o jogo é o mediador da atividade da pessoa e não o profissional brinquedista diretamente. No entanto, este profissional faz uma mediação essencial ao selecionar os jogos e propô-los ao seu público. Para tanto, ele deve conhecer as necessidades de desenvolvimento em cada estágio evolutivo. O que ocupa um bebê, uma criança de Educação Infantil, um menino da 3º. Ano do Fundamental ou um adolescente de secundário, cognitivamente falando?

Podemos caracterizar o desenvolvimento mental em suas diferentes modalidades evolutivas, identificando as necessidades de desenvolvimento e as manifestações lúdicas da criança em cada período. Falaremos aqui da criança de 7 a 11 anos e das características de seu desenvolvimento, coordenando-as com as características dos jogos de regras.

De acordo com Piaget, o jogo de regras expressa a qualidade de um pensamento que pode coordenar múltiplas informações, retornar a ação sobre si mesma, avançar e retroceder, no tempo e no espaço. Essa grande flexibilidade mental ocorre porque as ações são representadas, elas estão se desprendendo progressivamente da manipulação dos objetos e da ação concreta.

Mas não é só por isso. A inteligência posta em ação nos jogos estruturados (por oposição ao jogo simbólico, do “faz de conta”), além do poder de representar internamente as ações (passadas e futuras), é regulada por estruturas mentais que chamamos de operatórias. Essa qualidade do pensamento de operar mentalmente sobre o objeto só é possível graças às construções anteriores, da inteligência sensório-motora e da inteligência intuitiva.

O que existe de novidade agora e que deve ser estimulado através dos jogos e outras atividades lúdicas é a conservação do objeto, sua invariância e identidade lógica e a reversibilidade das ações sobre os objetos. Significa isso que agora a criança pode observar os deslocamentos das peças em um tabuleiro, por exemplo, recordando como estavam e projetando mentalmente para onde poderão se deslocar, assim, reconstituindo mentalmente suas ações e as transformações que o objeto sofreu. A partir deste ponto, ela poderá traçar estratégias e submete-las à prova. Se elas serão de fato eficazes vai depender de vários fatores, sendo o mais central deles a habilidade de seu adversário em superar o desafio das jogadas. Assim, não se domina um jogo e se constrói as melhores estratégias, jogando uma ou poucas vezes. O tempo é essencial para esse aprendizado. A oportunidade de repetir muitas partidas, sendo que cada uma sempre se apresentará diferente da outra, trará descobertas incríveis!

No uso dos jogos de regras, uma das preocupações dos adultos é: “Mas que jogo é bom para as crianças de tal idade?”. O problema não é oferecer jogos diferentes para cada faixa etária (como vemos indicado nas caixas dos jogos). Jogos com a mesma estrutura podem servir para várias idades (ou níveis de desenvolvimento) se manejamos a sua complexidade, aumentando ou diminuindo o número de informações. Assim, podemos diminuir o numero de peças e o tamanho do tabuleiro, simplificar a contagem e modificar as regras em função de permitir que o jogador lide com menor número de variáveis, simultaneamente.

Outro aspecto a ser regulado pelo adulto, ao adaptar os jogos aos níveis e às necessidades das crianças, é o nível de abstração em o jogador, vai operar. Abstração diz respeito ao modo como o objeto está presente, se de modo concreto ou representado e qual o grau dessa distancia entre o objeto material e a sua representação. A representação poderá ser através de imagens ou desenhos, num nível figurativo, portanto com nível de abstração médio. Mas os desafios poderão se basear em uma abstração bem maior, quando empregam uma formalização, usando algum código. Jogos com palavras, como as charadas, e o Sudoku, com números, por exemplo, exigem lidar com esse grau mais elevado de abstração.

A concretude dos jogos de tabuleiro, com suas peças e a possibilidade de manipula-las, traz para o desafio um nível menor de abstração.

Em que pese o apelo dos jogos eletrônicos,  as crianças continuam gostando muito de interagir e de brincar juntas livremente. Porém onde estão os espaços seguros e estimulantes para brincar e jogar, em nossas cidades?

Reivindicar a volta desses espaços, bem como do tempo de lazer, deve ser uma preocupação do brinquedista. Ele pode propor e empregar diferentes modos de relação com o jogo para promover atividades coletivas com jogos regrados, criando tempos e espaços lúdicos, tão preciosos quanto são escassos.

Maria Celia Malta Campos é doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Pedagoga e Psicopedagoga, atuando em psicopedagogia clínica, docência e assessoria escolar. Pesquisa acerca de Jogos na Psicologia e na Educação. É atual presidente da Associação Brasileira de Brinquedotecas e membro do Conselho Vitalício da Associação Brasileira de Psicopedagogia.  Tem artigos e capítulos de livros publicados a respeito do uso dos jogos na escola e na clínica.

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